Auditores fiscais constatam que maranhenses trabalhavam em condições análogas à escravidão em fazenda no Triângulo Mineiro


Situação começou a ser apurada pela Superintendência Regional do Trabalho de Minas Gerais após denúncia de 20 trabalhadores encontrados na BR-050, em Uberaba. Outros 8 trabalhadores que haviam se recusado a sair da propriedade em Veríssimo foram retirados do local. Trabalhadores esperando por horas na BR-050, em Uberaba, para serem levados de volta o Maranhão
Reprodução/TV Integração
Auditores fiscais da Superintendência Regional do Trabalho de Minas Gerais constataram que diversos trabalhadores do Maranhão estavam submetidos a trabalho análogo à escravidão na fazenda em Veríssimo. A situação começou a ser apurada após denúncia de 20 maranhenses encontrados na BR-050, em Uberaba, na noite da última segunda-feira (25). Relembre mais abaixo.
Os 20 trabalhadores continuam acolhidos na Casa de Passagem em Uberaba, onde são oferecidos alimentação, dormitório e acesso à higiene pessoal.
Além deles, outros 8 trabalhadores que continuaram na fazenda foram retirados da propriedade na terça-feira (26) pelos auditores fiscais e levados para um hotel em Uberaba. Eles haviam se recusado a sair da fazenda porque queriam receber pelo menos uma parte do pagamento.
O advogado que representa os trabalhadores, Márcio Antônio Belarmino, informou ao g1 que também há outros 4 trabalhadores que estavam indo para São Paulo, mas voltaram para Uberaba e foram acolhidos na Casa de Passagem porque não tinham condições de prosseguir viagem.
Nesta quarta-feira (27), às 11h, uma audiência está marcada para tratar o assunto.
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Trabalhadores encontrados e denúncia
A denúncia foi feita pelos 20 trabalhadores encontrados na noite da última segunda-feira (25), em um posto de combustíveis na BR-050, em Uberaba. Segundo o boletim de ocorrência, a Polícia Militar (PM) foi chamada no local e conversou com o advogado Márcio Antônio Belarmino.
Conforme Belarmino, os trabalhadores saíram de Veríssimo, onde atuaram em uma plantação de cana-de-açúcar, e chegaram a Uberaba na segunda por volta das 11h, com a promessa de que, por volta das 12h, outro ônibus chegaria para levá-los de volta até as cidades de Cajapió e São Vicente Ferrer, no Maranhão.
Enquanto aguardavam, o motorista do primeiro ônibus retirou uma peça do motor dizendo que levaria em uma oficina mecânica para consertar e que eles deveriam aguardar a chegada do segundo veículo.
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No entanto, já eram 18h30 e os trabalhadores continuavam no local ainda esperando o motorista, sem alimentação e sem orientação sobre o que fariam.
"A gente com fome. O banheiro fechado com cadeado. E o motorista deixou a gente, disse que ia ajeitar uma peça e não deu satisfação de nada. É uma situação difícil. A gente vem para trabalhar na roça e enfrenta uma situação dessas", desabafou Walternilson Costa Rodrigues.
Então, o grupo pediu ajuda no posto de combustíveis e contatou a imprensa para denunciar as condições em que se encontravam. Os trabalhadores afirmaram que outros 8 colegas continuaram em Veríssimo em condições de trabalho análogo à escravidão. Eles se recusaram a sair do local porque queriam receber pelo menos uma parte do pagamento.
Ainda conforme o boletim de ocorrência, o motorista do ônibus retornou ao local, mas quando percebeu a presença da imprensa, saiu correndo. O ônibus foi recolhido ao pátio conveniado.
Após a chegada da PM, os trabalhadores foram encaminhados pelo Serviço de Abordagem Social para a Casa de Passagem.
Más condições de trabalho
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Os trabalhadores chegaram no começo de março e deveriam ficar ao menos até junho na fazenda na região de Veríssimo. A promessa era de trabalho registrado, com comida e acomodação.
Porém, segundo eles, o fazendeiro não cumpriu com as obrigações trabalhistas. Entre as reclamações, estão alimentos insuficientes, falta de água potável, alojamento pequeno para muitas pessoas e falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).
Além disso, um vídeo gravado por um dos trabalhadores (veja acima) mostra que no local em que ficaram havia lixo espalhado. No alojamento, camas e colchões velhos e sem condições de uso. Alguns chegaram a dormir no chão. O banheiro também estava em condições precárias e sem higiene. O chuveiro, por exemplo, era um cano na parede.
"Eles prometem uma coisa lá no Maranhão, pelo telefone, e chega aqui e é outra. Inclusive, as condições e o tratamento não eram suficientes para esse serviço, que é desgastante e sofrido. Sol quente, calor, chuva. O café da manhã era só um pãozinho para cada. O almoço era fraco demais. Não tinha água gelada suficiente. Não pagavam um valor adequado para o nosso trabalho", contou José Ribamar Campos Costa.
O advogado Márcio Antônio Belarmino explicou ao g1 que, diante dessa situação, foram os próprios trabalhadores que decidiram romper o contrato e que o dono da fazenda fretou o ônibus para levá-los de volta ao Maranhão. Ou seja, o retorno estava acordado entre as duas partes.
O que diz o dono da fazenda
O dono da fazenda, Rafael Moraes Roxo, afirmou que os trabalhadores não foram abandonados na BR-050 e que o problema foi que o ônibus da empresa contratada iria sair de Goiânia para pegá-los em Uberaba, mas apresentou problema mecânico, causando o atraso. Ele disse, ainda, que até as passagens para o Maranhão já tinham sido compradas.
Rafael comentou que já trabalha há quatro anos com trabalhadores rurais e é a primeira vez que enfrenta essa situação.
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