Candomblecistas apontam ‘intolerância religiosa’ após culto evangélico em frente a Casa Fanti-Ashanti, em São Luís; Igreja contesta


Membros do Ministério Gideões Casa de Oração faziam uma caminhada com orações pelas ruas do Cruzeiro do Anil e pararam em outra igreja, em frente a Casa de Candomblé, que disse se sentir desrespeitada. Candomblecistas apontaram 'intolerância religiosa' após culto de pentecostais em São Luís
Uma casa de Candomblé registrou uma denúncia contra um grupo pentecostal por 'intolerância religiosa', após um culto realizado na Rua Militar do bairro Cruzeiro do Anil, em São Luís.
O caso aconteceu no último domingo (24), quando membros do Ministério Gideões Casa de Oração faziam uma marcha pelos 12 anos de aniversário. A programação previa uma caminhada com orações ao ar livre pelo bairro, com parada final em frente a Igreja Pentecostal Jeová Nissi, que fica na Rua Militar.
No entanto, a mesma igreja fica em frente a Casa Fanti-Ashanti, uma das mais tradicionais casas de Tambor de Mina Tradicional e de Candomblé Jeje/Nagô no Maranhão. A Casa disse que se sentiu ofendida e desrespeitada pelo ato da igreja.
Um vídeo (veja acima) postado nas redes sociais mostra um carro de som e o grupo da igreja fazendo uma oração. Em frente, membros da Casa Fanti-Ashanti observavam o culto.
Membros da Casa Fanti-Ashanti observam culto realizado por um grupo pentecostal na Rua Militar, em São Luís
Reprodução/Redes Sociais
Ao JM1, o pastor do Ministério Gideões, Charles Douglas Santos, disse que não houve ofensas em nenhum momento à Casa Fanti-Ashanti, mas somente os membros da igreja participando do culto ao ar livre, em frente a outra igreja, também pentecostal, voltado a eles mesmos.
"Nós completamos 12 anos de ministério e todo ano fazemos uma marcha para Cristo declarando que o Senhor é a nossa bandeira. Nós percorremos todos os bairros, Cruzeiro do Anil, Isabel Cafeteira. Em locais estratégicos nós parávamos, evangelizávamos, pregávamos o evangelho de Deus, e o último ponto que paramos foi em frente a uma igreja evangélica. Era o último ponto de parada para fazer o último clamor voltado para o nosso ministério, para encerrar a marcha!", afirmou.
Ainda assim, a Casa Fanti-Ashanti emitiu uma nota de repúdio (veja abaixo) pelo ato da igreja realizado na Rua Militar. Afirmam ainda que sentiram sua liberdade de culto ser desrespeitada, apesar do vídeo não indicar alguma palavra ofensiva, ou dirigida expressamente a eles.
"A Casa Fanti-Ashanti, na pessoa da Ialorixá Mãe Kabeca de Xangô, vem a público esclarecer que no dia 24 de abril, por volta das 17h, um grupo de pessoas de designação evangélica parou em frente ao terreiro e realizou gestos e atitudes desrespeitosas e ofensivas contra a religiosidade de matriz africana e seus membros, conforme vídeos que circularam amplamente nas redes sociais. Ao tempo em que repudiamos as condutas discriminatórias praticadas, enfatizamos que todas as medidas cabíveis referentes a este caso estão sendo providenciadas, para que atos sejam coibidos e seus autores responsabilizados. Exigimos o respeito ao nosso direito fundamental à liberdade de culto e de crença, ao pluralismo e a diversidade religiosa. Agradecemos as inúmeras manifestações de apoio e solidariedade dirigidas à mãe Kabeca e a toda comunidade Ashantiense, por diversos setores e segmentos da sociedade e reafirmamos o firme propósito de dar continuidade aos ritos e celebrações ancestrais que a casa realiza há 64 anos, contribuindo com o fortalecimento das expressões religiosas afrobrasileiras e com a cultura maranhense de forma geral", diz a nota.
A Comissão de Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil no Maranhão (OAB-MA) informou que busca entrar em contato com as partes para obter uma mediação. O pastor Charles Douglas reforçou que não houve ofensa em nenhum momento por parte de sua igreja, e que o respeito ao livre culto existe dentro de seu ministério.
"Esse ocorrido que está tendo na mídia não é verídico. Eu abomino desrespeitar as religiões, até porque eu entendo que todo mundo tem o livre arbítrio de escolher a sua religião, a sua crença; e nós, eu, o pastor Charles e o ministério de Gideões, digo que o que eu amo fazer é a obra de Deus. Isso [intolerância] não é verdade, não aconteceu. Nós não estávamos com intolerância religiosa e ninguém estava criticando ninguém. Ninguém estava zombando ninguém. Jamais. Até porque estávamos nesse trabalho, que é todo ano, e aconteceu da gente estar fazendo essa última oração e não sabíamos que estava tendo algum tipo de evento nessa casa, onde saíram algumas pessoas de branco e nos filmaram. Mas ninguém desrespeitou ninguém", finalizou o pastor.
Membros da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop) e da Secretaria de Estado Extraordinária de Igualdade Racial (Seir) estiveram, na segunda-feira (25), reunidos com representantes da Casa Fanti Ashanti para discutir medidas cabíveis ao caso.
Segundo a Sedihpop, foi realizado o registro de informações e coleta de depoimento das pessoas que presenciaram o episódio. Uma denúncia foi formalizada pela Ouvidoria de Direitos Humanos, Igualdade Racial e Juventude. Um boletim de ocorrência também foi feito, pela Casa Fanti Ashanti, na Delegacia de Crimes Raciais, Delitos de Intolerância e Crimes Agrários.
O caso será encaminhado para outros órgãos, como o Ministério Público do Maranhão (MP-MA) e a Defensoria Pública do Estado do Maranhão (DPE/MA).