Dia Mundial do Meio Ambiente: Maranhão enfrenta desafios na manutenção dos recursos naturais


Estado registra crises relacionadas à escassez de água, além de indicadores de poluição, nos mares e rios, o que compromete a saúde da população. Lagoa da Jansen é um locais com maior intensidade de poluição de São Luís.
Reprodução/TV Mirante
Preservação e conservação são duas palavras que ajudam a exemplificar o esforço contínuo, necessário e coletivo para o equilíbrio do meio ambiente. Neste domingo (5), há 50 anos, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Dia do Meio Ambiente, como data-chave para levantar discussões sobre a manutenção dos ecossistemas, com enfoque em soluções sustentáveis para o desenvolvimento da fauna e da flora.
O Maranhão, nos últimos anos, apresentou indicadores preocupantes relativos à qualidade da vida no meio ambiente. Apenas 30% da água encontrada em todo o estado é considerada potável, de acordo com o trabalho 'Gestão das águas no Maranhão’', desenvolvido pelo professor e engenheiro sanitário e ambiental, Lúcio Macedo.
A situação das bacias hidrográficas é acompanhada por problemas no saneamento básico. O Instituto Trata Brasil, responsável por avaliar e catalogar estudos com enfoque em saneamento, divulgou, no ano de 2020 um levantamento no qual o Maranhão apresentou cerca de 2,7 milhões de pessoas sem acesso à água tratada.
O número corresponde a 43,6% da população. Além disso, pelo menos 5,3 milhões de maranhenses não dispõem do serviço de coleta de esgoto.
Vista para o rio Paciência e o mangue no Porto da Salina, em Paço do Lumiar
Rafael Cardoso/G1 Maranhão
São Luís e o meio ambiente
A cidade de São Luís enfrenta um problema entre a distribuição de recursos naturais e a abastança de elementos como a água. A ilha registra 11 bacias hidrográficas: Anil, Bacanga, Tibiri, Paciência, Inhaúma, Praias, Santo Antônio, Estiva, Geniparana, Cachorros e Itaqui
Dentre as 11 bacias identificadas, na capital, há, pelo menos, nove rios – em sua maioria, de pequeno porte. Os afluentes deságuam, alcançando praias e dunas. O rio Anil e rio Bacanga cortam a cidade, em maior vastidão, com 12.63km e 233,84 km de extensão, respectivamente.

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Contudo, crises relacionadas à escassez de água costumam ser registradas, além dos indicadores de forte poluição, nos mares e rios, comprometendo a saúde da população e as garantias de salubridade do meio ambiente.
O avanço do crescimento populacional e comercial próximo aos rios, é identificado como um dos principais elementos contribuintes para a queda dos índices de balneabilidade de praias e rios. O fenômeno em progressão desde os anos 1970 ratifica um estado de coisas que influi, desde o lazer ao potencial turístico ludovicense.
No último relatório de balneabilidade das praias da Grande São Luís, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMA), todas as praias da Grande Ilha estão impróprias para banho.
A poluição também alcança as regiões arenosas das praias. Micoses como a larva migrans cutânea, popularmente conhecida como ‘bicho geográfico’, é comumente registrada nas praias de São Luís. Coceiras e irritações na pele são alguns dos efeitos produzidos pelo parasita, encontrado no intestino e nas fezes de cães e gatos. A doença ecoa outro grave problema da cidade: o abandono de animais.
O lixo na tela
O documentário ‘Mar de lixo’, produzido e dirigido pelo cineasta maranhense Taciano Brito enfoca a atividade de três lixões na Grande Ilha: o lixão da Pindoba, em Paço do Lumiar; o de Timbúba, em São José de Ribamar e do Aterro da Ribeira, em São Luís, já desativado. As cercanias entre a degradação da vida humana e a deterioração da geologia da cidade, considerada frágil – por tratar-se de uma ilha –, fica em suspenso.
Em entrevista ao g1 Maranhão, Taciano Brito explica que a narrativa do documentário pretende trazer ao espectador um contexto cronológico, norteando pela sensação de realidade, para chamar a atenção dos espectadores.
“O documentário traz um aspecto de chocar e levar o conhecimento da real situação que a gente vive hoje, trazendo um contexto histórico, mostrando que isso vem, cada vez mais, piorando e traz a responsabilidade para cada ser individual […]”, disse Taciano Brito.
O artista também reitera o protagonismo da água em toda o filme. Ele explica que a necessidade de preservação da água é o passo fundamental para a manutenção do equilíbrio entre a natureza e a permanência das formas de vida.
“O personagem principal do filme é a água. Tudo gera em torno da água; toda a narrativa traz, de alguma forma, a necessidade de preservação dessa água; de preservação do meio ambiente, para que, inclusive, nós possamos existir […]”, diz o cineasta.
O diretor revelou que a situação de impureza dos rios ludovicenses resultou em um dos principais impactos capturados ao longo do período de filmagens.
“O que foi mais chocante, pra mim, como diretor – ao acompanhar esse processo desde 2015 –, foi ver o quanto os nossos rios; as nossas águas; os nossos corpos hídricos estão completamente contaminados […] a gente continua banhando nas praias; os rios estão aí. Nenhum rio é mais utilizável pra banho […] isso é que é mais chocante pra mim", disse.
Peixes mortos na Lagoa da Jansen em São Luís
Reprodução/TV Mirante
O que o poder público tem feito?
Ações da sociedade civil em parceria com o poder público têm viabilizado formas alternativas de recolhimento do lixo produzido. A Prefeitura de São Luís, junto às associações de reciclagem, opera na triagem, armazenamento e venda de materiais reciclados, que servem como fonte de renda para cooperados e associados.
A atividade do Comitê Gestor de Limpeza Urbana (CGLU), por meio dos Ecopontos recepta a entrega voluntária de resíduos recicláveis, além de recolher papéis, plásticos, vidros, metais previamente separados, com o serviço de Coleta Seletiva programada.
Em todo o estado, o Governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema), realiza o processo de reciclagem atuando na formalização de cooperativas instituídas em cada Município.
O planejamento da gestão de resíduos, com a Agência Executiva Metropolitana (AGEM), também atua norteando o planejamento da gestão de resíduos em 13 municípios maranhenses da Região Metropolitana São Luís, tais como São Luís, São José de Ribamar, Paço do Lumiar, Raposa, Axixá, Morros, Icatu, Bacabeira, Santa Rita, Presidente Juscelino, Cachoeira Grande, Rosário e Alcântara.
Maranhão e o desmatamento
A degradação do bioma maranhense também é observada com preocupação. Cerca de 80% da floresta amazônica, situada em algumas porções do estado, foi devastada nos últimos 70 anos, segundo dados do governo federal, divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no fim de 2020.
A ação intrusiva nas florestas perpassam medidas à margem da lei, como a extração ilegal de madeira e a expansão no exercício da grilagem de terras. Ambos os delitos extraviam o desenvolvimento e a qualidade das populações nativas originárias e famílias agrícolas.
Em um levantamento da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras do Estado do Maranhão (FETAEMA), só nos primeiros meses de 2022, o Maranhão apresentou cerca de 92 conflitos de terra.
92 conflitos de terra já foram registrados no Maranhão em 2022
Reprodução/TV Mirante
Os indicadores se somam à tendência de crescimento no número de confrontos eivados pelas disputas territoriais. Em 2021, o estado ficou na segunda posição do ranking de conflitos agrários, conforme o relatório divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).
O prejuízo no campo introduz o desequilíbrio como ordem no ecossistema. O que se poderia cogitar como acontecimentos, à primeira vista, antagônicos – do trabalho infantil à falta de alimentos –, ganha força com a devastação florestal.
* Matéria realizada sob supervisão de Rafaelle Fróes, g1 MA.